vou lá porque você não está / i go there because you aren’t




o estado entre o encontro e o contato
a being between encounter and contact


realizado por lucas girino, manuela miranda and vinicius bernardes
documentary / 15' / 2014
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crítica da décima sessão do cine caolho
(por érico araújo lima, completo aqui)

"Vou lá porque você não está se revela em uma estrutura aberta, que transita entre o tom de observação e o contágio mais intenso entre quem filma e quem é filmado. Existem fragmentos que se conectam muito mais por princípios visuais que por uma associação narrativa. É como se a própria intensidade dos movimentos do mundo passasse a produzir também o ritmo da montagem. Existem como que episódios da vida de um bairro, captados com um interesse plástico pelo rigor do quadro e da composição, com o desejo em estabelecer uma cena fílmica que se faça na densidade da cena urbana. Os procedimentos de cada um desses episódios não cessam de se desarmar e de indicar quebras na escritura, como quando acompanhamos garotos a se aproximar da porta de uma casa, sob a intervenção sonora que acentua uma espessura e uma atmosfera de suspense. Um rosto é intercalado nessa trilha, rosto que nos olha e interroga. Essa reflexividade que revela e acentua o próprio dispositivo cinematográfico passa a despontar como um dos interesses centrais da pesquisa que o filme desenvolve. Como em Vailamideus, aqui o que está fora de quadro também se projeta constantemente no quadro, para brincar, torcer ou traçar pontes com o mundo recortado pela câmera.

Um dos personagens do filme passa a fazer perguntas a quem o filma, lança uma fala para o antecampo, com interesse pelo aparelho que está a capturar sua imagem. Ao lado dele, uma integrante da equipe de realizadores também figura na cena, com o equipamento de som em uma das mãos. Filme e filmado tentam experimentar um só e mesmo mundo. Na presença partilhada de um espaço comum possível, eles tentam ser contíguos e coextensivos um ao outro, ainda que naquele instante, transitório, fugaz e intermitente. Um mesmo banco, um esforço em buscar um mesmo plano de forças. Na parede ao fundo, uma inscrição: “só Deus doma”. Em outro momento mais adiante, os realizadores passam a entrar de vez no quadro, sentados também em um banco, as paredes com as marcas dos homens e mulheres que ali vivem: podemos ler “comunidade Mondubim” e “comando Mondubim” lado a lado. Vidas se inscrevem nos muros, e aqui o plano cinematográfico tenta também inscrever uma partilha de luz nesse mesmo território sensível."